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Blog 26.04.2017

O trabalho com luz natural na fotografia

Acho que desde que tinha uns 12 anos, eu sabia que queria fazer filmes. E já faz 10 anos que trabalho com cinema, há uns 6 como diretor de fotografia.

A fotografia veio como este instrumento para contar histórias e transpor sentimentos e narrativas em imagens. A fotografia still é quase que uma diversão, uma maneira de praticar o que faço no audiovisual.


Foto: Adolpho Veloso

Referências

Muito da minha inserção na fotografia veio através do cinema, e grandes filmes que, em sua maioria, contavam com um trabalho de cinematografia essencial.

A cinematografia é o trabalho de iluminação, enquadramentos e captação que cria as imagens na arte do cinema. É a fotografia de um filme.

Nestes filmes que chamam minha atenção, elementos como o lugar onde colocar a câmera, e como iluminar determinada cena, sempre estão a favor da narrativa, contando sentimentos e histórias, às vezes sem a necessidade de uma palavra sequer ser dita ou reforçando o que estava sendo falado. A fotografia também tem o papel de contar uma história. Seja real ou ficção.


Foto: Adolpho Veloso

E em geral, as cinematografias que mais me interessavam eram as que contavam com uma luz naturalista, que em momento nenhum era imposta de forma grosseira ou estranha. Essa luz sempre tentou se aproximar muito da realidade ou, em muitos casos, era a própria luz natural.

Como espectador, eu aceitava as atmosferas daquelas cenas de um jeito suave e natural. Acho que muito desse efeito era sentido pela habilidade que esses fotógrafos tinham em usar ou replicar a luz natural nas cenas. Estou falando de fotógrafos como Roger Deakins, Rodrigo Prietto e Gordon Willis e tantos outros.


Foto: Adolpho Veloso

A simulação da luz natural na pintura também começou a chamar minha atenção. Isso vem de gênios como Johannes Vermeer, que simulava nos seus quadros situações cotidianas e replicava a luz natural de maneira impressionante.

Sempre gostei do escuro nas imagens, e o chiaroscuro – termo que denota o contraste entre luz e sombra numa imagem e que é bem presente em algumas obras de Vermeer - em geral, sempre me agradou bastante.

Pra mim as partes da imagem sem luz são tão importantes quanto as iluminadas, é o contraste que cria volume e ao esconder revelamos apenas o que precisa ser mostrado. Ao trabalhar este elemento com a luz natural, você pode valorizar determinadas partes de sua imagem, dando mais veracidade à imagem. 


Foto: Adolpho Veloso

O trabalho com reflexos e cores criados pela luz natural

Usar a luz natural ao fotografar traz algo que luz artificial nenhuma consegue.

As cores são diferentes. Ao abrir uma janela, por exemplo, você não tem uma fonte única de luz entrando; a luminância do céu tem um tom, o sol tem outro, o reflexo da luz que bate no que está ao redor possui outro aspecto, seja uma parede, uma árvore ou o que for que tem outro tom.


Foto: Adolpho Veloso

Enfim, reflexos diferentes que juntos podem criar uma imagem única. A pele não só absorve luz, mas também reflete toda a luz que está ao seu redor. Acho que conto nos dedos as vezes em que usei um filtro polarizador – ferramenta que retira os reflexos e traz apenas a autêntica luz do ambiente -, exatamente porque ele pode matar o que mais gosto, que são os reflexos de luz que vêm de todos os lados.

Trabalhar com esses reflexos pode ser ótimo para uma imagem.

A primeira coisa que faço quando chego em locações internas é apagar todas as luzes artificiais para ter uma noção do que a luz natural que entra pelas janelas projeta nos ambientes. A partir daí, entendo melhor os ângulos que me agradam e as partes que me interessam mais e onde posso ter um problema e fica mais fácil solucionar.


Foto: Adolpho Veloso

Se as luzes estiverem mais fracas, ou tiverem nuances muito sutis, uma boa opção para destacá-las é trabalhar com o ISO da câmera. Como é responsável pela sensibilidade à luz do sensor da câmera, o ISO pode ser o elemento essencial para trazer mais o desenho das luzes às suas fotos. Mas use com moderação: se aumentar muito o ISO suas fotos podem ficar muito granuladas.

Contrastes

Outro fator importante é lembrar que quase todo elemento de dentro da locação reflete a luz que vem das aberturas, alguns com mais intensidade e outros com menos. Espelhos e superfícies claras rebatem a luz, enquanto as superfícies escuras bloqueiam o reflexo e são boas ferramentas para criar contraste.


Foto: Adolpho Veloso

Por exemplo, se eu tiver um rosto sendo iluminado lateralmente por uma fonte de luz ampla e sentir que está muito uniforme, posso usar um pano preto no lado do rosto que eu quero escurecer. Este pano preto pode ser colocado de forma a bloquear parte da luz natural que ilumina o rosto. A relação de proximidade entre o pano e o rosto depende muito da intensidade que quero dar à parte negativada.

A preferência por luzes mais difusas

Toda luz pode ser boa dependendo do que você quer contar. Mas geralmente procuro não fotografar em ambientes externos nos horários de sol alto.

Principalmente quando fotografamos pessoas, o sol forte por cima do rosto deixa sombras que não favorecem. Nesses casos, o melhor é procurar por alguma sombra ou torcer para o dia ficar nublado.

Quando o sol está mais baixo, mas ainda intenso, procuro usa-lo como contraluz. Usar lentes claras, destacando o objeto com um diafragma mais aberto ajuda e dá um aspecto que me atrai.


Foto: Adolpho Veloso

A técnica é necessária, mas contar a história com minha imagem é mais importante.

Cada vez entendo mais que é importante ter domínio da técnica, que quanto mais conhecimento técnico você absorve, mais segurança e recursos se tem para trazer a atmosfera que a imagem precisa. Mas isso não pode se tornar uma obsessão.

Sempre acho mais importante partir do que quero contar com a minha imagem e depois aplicar a técnica. Isso envolve entender o que está sendo fotografado, onde, com quais elementos e etc.


Foto: Adolpho Veloso

Acho que assim as imagens que se criam, seja em um filme ou em uma foto, possuem mais verdade e mais sentimento. Muitas vezes ter uma câmera menor permite criar uma relação mais íntima com quem está sendo fotografado, a falta de "pretensão aparente" ajuda na abertura e na conexão com a pessoa, a falta de "luz artificial" também.

Sinto que em geral todos se sentem mais confortáveis quando estão no mundo "real" e não em um ambiente artificial com um monte de luzes e câmeras.

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Site do autor: adolphoveloso.com
Instagram: @adolphoveloso

Publicado por: Adolpho Veloso Categoria: Inspire-se

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