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Blog 04.09.2017

Fatos e imagens: registrando a história com a fotografia

“Imagens contínuas (televisão, vídeo, cinema) rodeiam-nos incessantemente, mas, quando se trata de nos lembrarmos, a fotografia morde mais fundo. A memória congela as imagens; a sua unidade de base é a imagem individual. Numa sobrecarga de informação, a fotografia fornece um meio rápido de aprender uma coisa e uma forma compacta de memorização. A fotografia é como uma citação, uma máxima ou um provérbio.”

Nesse trecho de “Olhando o Sofrimento dos Outros”, Susan Sontag expõe um dos principais pontos de por que o fotojornalismo nos morde tanto. E ela continua com um ponto que para meu trabalho é importante: “A imagem como choque e a imagem como clichê são dois aspectos da mesma presença”. Quanto a isso, a minha busca não é nem o choque, tampouco a fuga dos clichês, mas uma apropriação e distorção de ambos para desenhar uma ponte de comunicação honesta.


Blocos de rua no carnaval de São Paulo. (Foto: Caio Kenji)

As primeiras histórias no fotojornalismo

Quando comecei no fotojornalismo, 13 anos atrás, queria reportar fatos, estar in loco nos grandes eventos que dão corpo ao nosso *zeitgeist. Hoje me vejo não só como observador, mas também como parte de tudo isso, e, sendo parte, também tenho minhas inclinações, crenças, valores. Todas essas peças estão presentes na minha fotografia, ou seja, não acredito na objetividade incontaminada.

* Termo alemão que significa "espírito do tempo". Uma espécie de sinônimo para contexto contemporâneo.

 Matéria sobre o funk paulista. (Foto: Caio Kenji)

Gosto de questionar, pôr as coisas em perspectiva, olhar e olhar novamente quantas vezes for possível para ter diferentes enfoques do mesmo assunto (também por isso, não concordo com a máxima de Robert Capa, que diz que se sua fotografia não é boa o suficiente é porque você não estava perto o suficiente — pois o distanciamento é por vezes necessário e cai bem).

Hora de contar as histórias reais com fotos

No momento de sair para a pauta, tento sempre fazer minha lição de casa sobre o assunto, pesquisar o que já foi dito, ouvir opiniões, captar o máximo do contexto. Na mochila, levo sempre o mínimo possível: a Canon EOS 5D Mark II, que já me acompanha há um tempo, pois ela me dá o alcance de contrastes, cores e textura de que preciso (sem grip e flash, a menos que a pauta seja um retrato), e, além disso, duas lentes, a EF 24-70 f/2.8L II USM e a EF 70-200 f/2.8L IS USM, pois com elas consigo uma boa movimentação e ótimas opções se precisar me distanciar ou aproximar do assunto.


Um dos corredores da Penitenciária José Parada Neto, em Guarulhos. (Foto: Caio Kenji)

A partir daí, a problematização fica por conta de criar as narrativas que expressem minhas ideias, conectando pontos da notícia em questão, mas também deixando outros pontos abertos para serem interpretados livremente por quem os vai visualizar.

Algumas das boas histórias

Neste tríptico do debate eleitoral para a prefeitura de São Paulo em 2016, por exemplo, uma cena do intervalo me chamou a atenção e cliquei uma sequência que de certa forma mostra o que eu estava sentido sobre o cenário de toda aquela campanha.



Cena do intervalo do último debate entre os candidatos a prefeitura de São Paulo em 2016. (Foto: Caio Kenji)

Outra imagem do cenário político que penso ser aberta para interpretações foi da saída de um discurso de Lula em São Bernardo do Campo, um eleitor emocionado limpou o suor do rosto do então presidente, num gesto que para mim ficou marcado.

 Ex-presidente Lula deixando local de discurso em São Bernardo do Campo. (Foto: Caio Kenji)

Uma cobertura que também me marcou foi a do incêndio na Favela do Moinho em 2012. Em situações de grande tensão, fica sempre mais difícil escolher ângulos e definir enfoques. Sendo assim, acho que é importante, nessa hora, tentar sentir o que se passa tanto ao seu redor quanto consigo mesmo.

Nesse caso, primeiro fiz algumas imagens de abordagem mais direta, mostrando o fogo e os bombeiros, mas a imagem que transmite o que senti naquele dia não foi a que ilustrou a capa do jornal do dia seguinte, mas sim esta imagem de um homem correndo com a fumaça ao fundo e com uma expressão que me faz reviver muito daquele dia. Abri o quadro para dar uma maior dimensão da fumaça, mas não muito, para também manter a atenção em seu rosto.


Incêndio na favela do Moinho em 2012. (Foto: Caio Kenji)

O retrato também tem um papel importante no fotojornalismo, pois, quando estamos contando histórias, os personagens dela são pontos-chave. Quando faço retratos, procuro sentir o fotografado, escolher o cenário que vai ambientá-lo, a luz (prefiro a luz natural, mas em muitos casos o flash é necessário) que vai acentuar o clima e depois deixar as imagens surgirem da forma menos controlada possível. Nesse caso, acho que muita “direção” do fotografado não convém.


Retrato para matéria especial de natal. (Foto: Caio Kenji)

Gosto de usar a EF 24-70 f/2.8L II USM para os retratos, pois me permite ficar mais próximo sem ter tantas distorções de linhas (na maioria das vezes, uso distâncias focais acima dos 50 mm).

Por que contar histórias reais com fotos?

Penso que o papel do fotojornalismo é e vai continuar sendo importante na comunicação dos acontecimentos da vida cotidiana. Com isso, o principal ponto para quem quer fazer parte desse contar histórias é se interessar por elas, sempre questionar. Ter dúvidas é mais importante que as resolver. Suas verdades podem mudar (lá vai um clichê) na velocidade do obturador, e não há mal nenhum nisso. É bom estar aberto e continuar mudando. Além disso – muitos podem discordar –, olhar mais, sentir mais e clicar menos, mas de forma mais afinada e afiada.

Publicado por: Caio Kenji Categoria: Inspire-se

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