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Blog 26.06.2017

Expressão e retratos – conheça o trabalho de Juliana Matos

Comecei a fotografar por uma necessidade de me expressar. Eu queria saber mais sobre mim e sobre o mundo. Queria ampliar as minhas possibilidades e me colocar em situações em que eu me sentisse numa aventura.

Se a mente é mágica, seria o sentir-se vivo uma questão de perspectiva? Para onde e para quem eu estava olhando – e de que forma? Será que por outro ângulo eu não veria a mim mesma e a minha própria realidade de outra maneira?

Foi assim que comecei a me interessar por retratos. Os meus irmãos foram os meus primeiros modelos. Saía com eles pela cidade e pedia para que fizessem poses estranhas. Eu não tinha muitas referências sobre o que era certo e errado, e isso me ajudou muito a desenvolver o meu próprio estilo.

Ao longo do tempo, fui encontrando fotógrafos que me inspiraram a seguir adiante, me mostrando o quanto um retrato pode ser fantástico. Gosto muito do trabalho do Tim Walker, Jimmy Marble e Michal Pudelka.

O começo no mundo dos retratos

Quando adolescente, eu era fissurada pela filosofia oriental. Foi com ela que aprendi o que é um artista. Quando um pintor retratava uma paisagem, ele pintava a sua experiência interna sobre aquele lugar – e não o que estava vendo. Então eu comecei a fazer esse exercício. Me perguntava sobre a narrativa daquele espaço e o que uma pessoa estaria fazendo ali. Carrego comigo essa maneira de pensar até hoje e é assim que eu descubro a “ação” de um retrato, a posição que interfere diretamente na leitura daquele lugar. 


Canon EOS 5D Mark III - EF 40mm f/2.8 STM (Foto: Juliana Matos)

Depois senti que eu queria me aproximar ainda mais daquele recorte humano. Fui me acercando mais e mais até chegar perto o suficiente para enxergar o que há dentro de um olhar. 

Foi nessa época que comprei a Canon EOS 5D Mark III. O celular já não era suficiente e a lente EF 24-105mm F/4L IS USM veio para estourar o meu mundo de possibilidades.

Com o feature macro de 0.45/1.5 ft dela, eu conseguia me aproximar o bastante para ver o que queria.

 Canon EOS 5D Mark III - EF 24-105mm F/4L IS USM (Foto: Juliana Matos)

Dirigindo a pessoa fotografada

Para mim, a fotografia é um encontro. Aquele breve momento em que se trocam olhares em silêncio e algo se revela. É uma escolha de se mostrar daquela maneira e não de muitas outras. O fotógrafo também escolhe, direciona a imagem para que o diálogo seja verdadeiro.


Canon EOS 5D Mark III - EF 24-105mm f/4L IS USM (Foto: Juliana Matos)

Com o tempo, fui entendendo que existem muitas formas de orientar um retrato.

Existem os fatores subjetivos, como a conexão interpessoal entre o fotógrafo e o fotografado. É preciso conduzir a situação para que o “clima” esteja de acordo com o objetivo da imagem.

Tensão ou relaxamento? Extroversão ou introspecção? A sensação e o sentimento gerado naquele espaço-tempo.

Geralmente começo conversando um pouco com a pessoa. Começo com assuntos mais cotidianos e vou levando a conversa até o sentimento que queremos passar com o retrato.

Em alguns casos, quando o retrato é mais espontâneo, eu espero até que a pessoa se distraia e então chamo sua atenção à lente para fazer o click. Embora existam alguns macetes, não existe uma fórmula, porque as pessoas são muito diferentes e o que funciona com uma pode não trazer os mesmos resultados com outra. O mais importante é prestar atenção no jeito que cada um funciona e ter muito carinho com quem divide o espaço com você.


Canon EOS 5D Mark III - EF 24-105mm f/4L IS USM (Foto: Juliana Matos)


Canon EOS 5D Mark III - EF 24-105mm f/4L IS USM (Foto: Juliana Matos)

Os fatores objetivos também interferem muito. O primeiro deles, e talvez para mim o mais importante, é o direcionamento corporal.

Eu gosto muito de retratos documentais, pela força e verdade que eles trazem. Mas o fato é que pessoas “comuns” não estão acostumadas a estar na frente da câmera. Mais do que isso, as pessoas em geral não têm o que se chama de “consciência corporal”, esse autolocalizar-se que entende o próprio corpo no espaço. E o corpo fala.

Como a fotografia não tem som, a imagem tem que passar toda a mensagem.

Por isso é importante orientar o corpo do fotografado, esclarecer a comunicação não verbal. O que significa, dentro da nossa cultura, o cruzar de braços ou uma sobrancelha arqueada? O sujeito interage consigo ou com o que está em volta?


Canon EOS 5D Mark III - EF 24-105mm f/4L IS USM (Foto: Juliana Matos)


Canon EOS 5D Mark III - EF 24-105mm f/4L IS USM (Foto: Juliana Matos)

É bom valorizar os olhos

Os olhos são parte dessa expressão e é a parte do corpo de que eu mais gosto. Às vezes, inclusive, contradizem o corpo e se expressam de forma independente. O corpo pode ser franzino, estar tenso ou debilitado, mas o espírito não – dá para ver isso dentro de um olhar. Por isso gosto muito quando o fotografado olha diretamente para a câmera, ou para mim.

O foco crava naquela janela de expressão, naquele portal de verdade. Eu quero que ele me enxergue, e eu me mostro. Mas a única forma de me ver é se mostrando também. A fotografia, de novo, é um encontro. 


Canon EOS 5D Mark III - EF 24-105mm f/4L IS USM (Foto: Juliana Matos)


Canon EOS 5D Mark III - EF 24-105mm f/4L IS USM (Foto: Juliana Matos)

Outros fatores objetivos seriam o que chamamos de “arte”, a atmosfera material que envolve o fotografado. Onde está essa pessoa, que roupas ela está usando, quais são as cores? Tudo isso vai interferir diretamente no resultado.

  Canon EOS 5D Mark III - EF 40mm f/2.8 STM (Foto: Juliana Matos)

A luz e a lente

Os fatores técnicos fecham a equação do retrato. É aí que entra a habilidade matemática do fotógrafo. Qual é a luz, ou onde está a luz – e a sombra? Iluminação natural ou artificial?

As escolhas da lente e do ângulo também interferem na materialização daquela visão.

Como eu sou uma pessoa pequena (1,60m), tendo a ver o mundo de baixo para cima, o que acaba interferindo na maneira como eu fotografo.

Ultimamente venho me interessando por ficar cada vez mais perto do chão –, uma forma de exagerar o que eu enxergo naturalmente. Quando fotografo de cima para baixo, peço para a pessoa se sentar ou se agachar para trazer a mesma distorção.

Nos retratos abaixo, usei uma lente EF 16-35mm f/2.8L II USM. A grande-angular causa uma certa distorção e traz esse efeito “muito perto e na sua cara”. É como se a pessoa estivesse se debruçando sobre mim com tudo o que ela tem dentro de si.

 Canon EOS 5D Mark III - EF 16-35mm f/2.8L II (Foto: Juliana Matos)


Canon EOS 5D Mark III - EF 16-35mm f/2.8L II (Foto: Juliana Matos)

Escutar é importante para fotografar

Fotografar pessoas me levou a muitos lugares e me permitiu escutar diversas histórias. Tive a oportunidade de participar da narrativa única de seres humanos incrivelmente complexos e interessantes que cruzaram o meu caminho. O fotógrafo escuta tanto o que é verbalizado quanto o que é mistério. Para mim, traduzir o silêncio em luz é o seu ofício. Primeiro ele escuta, depois ele enxerga. Mas só quando existe diálogo é que a foto se revela. 


Canon EOS 5D Mark III - EF 16-35mm f/2.8L II (Foto: Juliana Matos)

Com a fotografia aprendi a ser espelho e a me ver nos olhos dos outros. Aprendi a construir o meu mundo dentro de uma perspectiva que faz sentido para mim. O meu autorretrato muda com o tempo, e minha expressão se transforma conforme me descubro. É essa vontade de troca que me motiva a seguir aprendendo. 

Publicado por: Juliana Matos Categoria: Inspire-se

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