teste minha imagem
Google+

Blog 23.01.2017

Conheça João Maia, o fotógrafo cego

Não há exagero em dizer que João Maia é um exemplo. A história de João é uma completa manifestação de arte, humanidade, convicção e vida. Acometido de uma doença, João se tornou deficiente visual aos 28 anos.

Mesmo sabendo de toda a readaptação que ele teria de passar e das dificuldades de vivência numa sociedade que engatinha quando o assunto é inclusão e acessibilidade, João tomou novas rédeas e rumou para sua independência. Mais que isso: João rompeu suas próprias expectativas, trouxe o melhor de si e dedicou-se ao sonho antigo de se tornar fotógrafo profissional.

Conseguiu e com muito êxito.

João não só se tornou profissional da imagem como foi o primeiro fotógrafo deficiente visual a registrar uma paralimpíada. Isso aconteceu nas Paralimpíadas do Rio, em 2016. Sua presença foi um sucesso absoluto e é claro que João já está pensando nas Paralimpíadas de Tóquio, em 2020.

Sua história tornou-se conhecida no mundo inteiro, e como faz questão de dizer, seus equipamentos são todos Canon.

João concedeu uma entrevista ao Canon College e falou sobre sua vida, carreira, técnica e inspiração. Confira.

-------------

CANON COLLEGE João, quando foi e o que ocorreu para que você se tornasse deficiente visual?

JOÃO MAIA Eu me tornei deficiente visual em 2004, aos 28 anos. Isso ocorreu devido a uma uveíte bilateral, uma inflamação em alto grau que destrói todo o olho. Nesse caso, houve um descolamento de retina e perdi completamente a visão do meu olho direito. Já no olho esquerdo, tive uma lesão no nervo ótico, resultando em baixa visão. Enxergo apenas uma pequena relação de cores e muitos vultos.

 

CANON COLLEGE Qual foi o seu primeiro contato com a fotografia?

JOÃO MAIA Ainda enxergando, aos 14 anos, fazia um curso técnico de agropecuária na Escola Federal, e um professor havia ganhado um prêmio de fotografia. Isso me despertou e, então, comecei a fotografar meus colegas dessa época. O pessoal da escola percebeu meu interesse e começou a me chamar para fotografar os eventos internos, e foi aí que começou a minha paixão pela fotografia.

Em 2008, já deficiente visual, fiz um curso de fotografia especializado em deficientes visuais e aprendi e desenvolvi técnicas que me deram base para ser profissional.

 (Foto: João Maia)

CANON COLLEGE Mesmo apaixonado por fotografia, após se tornar deficiente visual, que tipo de técnica você desenvolveu e como faz para fotografar?

JOÃO MAIA Sendo deficiente visual, fotografar para mim é uma experiência sensorial. Eu utilizo principalmente minha audição, olfato e tato. Como disse anteriormente, sou baixa-visão, tenho a percepção de vultos e cores através do olho esquerdo em até 1,5 m. Quanto mais contrastadas forem as cores, melhor para mim. São esses vultos que uso como base.

Toda vez que fotografo, preciso do auxílio de alguém. Usando os esportes olímpicos como exemplo, mais especificamente o atletismo, o assistente irá me dizer o nome do atleta, a posição na raia, a descrição da roupa do atleta etc. A partir daí, é tudo sensorial. Utilizo os sentidos, me localizo e faço os cliques.

Também confio muito na tecnologia da câmera que utilizo. O foco automático, por exemplo, é muito importante para meu trabalho. É necessário ter um foco preciso e rápido para conseguir fazer minhas fotos, e tenho isso nas câmeras Canon.

Utilizo muito o modo esporte que é totalmente automatizado. Quando o ambiente me propicia a trabalhar de forma um pouco mais persoinalizada, utilizo também os modos Tv (prioridade de obturador) e Av (prioridade de abertura).

Também trabalho muito com o autoco AI SERVO, aquele que automatiza o foco da câmera e acompanha o assunto escolhido. O AI SERVO é ótimo para quando o atleta tem movimentos muito rápidos. Sei qua a foto está em foco com o auxílio sonoro que vem do sistema de autofoco da câmera. A tecnologia da câmera me ajuda muito.

 

 (Foto: João Maia)

CANON COLLEGE Como você se especializou na fotografia esportiva?

JOÃO MAIA Antes do início da deficiência, eu era atleta profissional. Disputei campeonatos e cheguei ao torneio nacional de atletismo. O esporte me abriu muitas portas. Foi através dele que ganhei uma bolsa e pude me formar em História e também tive acesso à fotografia. Eu disputava e também fotografava meus colegas.

Após me tornar deficiente visual, descobri, durante minha reabilitação, que poderia voltar a fotografar, mesmo dentro das novas condições. Tudo o que eu aprendia no curso colocava em prática fotografando atletas.

 (Foto: João Maia)

CANON COLLEGE Como foi fotografar as Paralimpíadas do Rio e ser o primeiro fotógrafo deficiente a fazer esse registro?

JOÃO MAIA Para mim, foi uma grande honra, pois, de toda a imprensa, o único deficiente visual era eu.

Eu sabia da responsabilidade e, quando cheguei às Paralimpíadas, pensei que seria invisível, mas, logo no segundo dia, um jornalista da AFP, agência francesa de notícias, quis me conhecer, saber do meu trabalho e passou o dia comigo. Esse conteúdo foi divulgado para vários países e em muitos idiomas. Dessa forma, as pessoas foram me conhecendo.

Nesse mesmo dia, tive a chance de fotografar uma atleta francesa no salto. Ela bateu o recorde, e eu consegui registrar algumas fotos enquanto explicava todo o processo ao jornalista também francês. No final, ele comprou minhas fotos e vendeu também para vários países.

A partir daí, não conseguia mais trabalhar, porque todo mundo queria saber quem era o fotógrafo deficiente visual que estava registrando os jogos com tanta sensibilidade. Dei muitas entrevistas e tive de trabalhar dobrado para atender todo mundo.

A minha primeira  grande reportagem nos jogos Paralimpicos Rio 2016, foi uma indicação  de pauta da grande repórter fotográfica: Ana Carolina Fernandes, também conhecida como Cula. Foi bem legal!

Em resumo, fotografar nos jogos foi algo indescritível. Tive a oportunidade de fotografar o futebol de 5, que é o futebol adaptado para deficientes visuais, no qual a bola possui um guizo para sonorizar sua posição. Foi incrível! A plateia toda em silêncio para não atrapalhar os jogadores que utilizam a audição para jogar, e eu pude acompanhar bem com minha câmera. O mesmo aconteceu com o golbol, um esporte criado para cegos.

Foi realmente incrível mostrar tudo isso com a minha sensibilidade, porque, no final, fotografia é isto: expressar sua sensibilidade.

 (Foto: João Maia)

CANON COLLEGE - Você tem outros temas fotográficos, além do esporte?

JOÃO MAIA - Sim, gosto muito de fotografar pessoas em retratos. É sempre bom experimentar novas áreas dentro da fotografia.

 (Foto: João Maia)

CANON COLLEGE Quais equipamentos Canon você utiliza hoje?

JOÃO MAIA Tenho uma Canon EOS 70D, porque ela tem um foco bem preciso e rápido para esporte, uma lente EF 50 mm f/1.8 STM e a lente do kit, a EF-S 18-135 mm f/3.5-5.6. Além disso, tenho um tripé e um flash também Canon.

Em eventos grandes, como as Paralimpíadas, costumo alugar outras lentes. Gosto muito da EF 70-200 mm f/2.8 L USM e o meu sonho de consumo que é a EF 100-400 mm F/4.5-5.6L IS II USM.

A Canon está comigo desde meus primeiros passos na fotografia. Assim que me tornei deficiente e comecei o curso, um amigo, Edson, me deu de presente uma Rebel XS e depois conquistei a Canon EOS 70D, que é o meu xodó.

 (Foto: João Maia)

CANON COLLEGE Existem cursos de fotografia específicos para deficientes visuais?

JOÃO MAIA Sim, existem.

Em 2004, quando me tornei deficiente visual, um amigo me disse que havia um curso de fotografia para deficientes visuais e eu fiquei muito feliz, porque poderia voltar a um sonho antigo. Quando você se torna deficiente, pode vir a tristeza, a depressão... Com o curso, eu poderia voltar à fotografia.

Fiz o curso de Alfabetização Visual no Senac. É um curso livre que faz parte da própria graduação de fotografia. E é realmente uma troca. O curso tem uma metodologia própria e é bem legal.

Depois fiz um curso no MAM específico para deficientes visuais e, por fim, outro na Pinacoteca do Estado.

Eu acho que a gente não pode parar. A fotografia é viva, e a gente precisa aprender. Quanto mais você tem a troca, a experiência, melhor você aprende. Isso traz vivência e o trabalho fica melhor.


CANON COLLEGE
Qual mensagem você acha que seu trabalho deixa para as pessoas com ou sem deficiência?

JOÃO MAIA Eu acredito que todos somos capazes, deficientes ou não. Porque, acima de tudo, fotografia também é inclusão. Se estou tendo essa oportunidade de mostrar meu trabalho e estar inserido nesse mercado, isso significa inclusão, é oportunidade de trabalho. Isso é oportunidade de ter dignidade.

Quero mostrar que as pessoas com deficiência são capazes, muitas vezes, elas só precisam das ferramentas certas para produzir, para que possam ser verdadeiramente incluídas na sociedade e ter o respeito dos outros.

No Brasil, há mais de 6 milhões de pessoas com deficiência visual, por isso, quero dizer que elas são capazes. Quero que minha história mostre a elas que são capazes e que é possível alcançar os sonhos. Consegui um deles, que foi fotografar os Jogos Paralímpicos do Rio, mas já tenho um novo que é chegar a Tóquio em 2020. Essa é minha meta.

Meu desejo é que apareçam outros como eu, pois somos muito capazes.

 (Foto: João Maia)

-------------------------------

João Maia está empenhado para alcançar suas metas e chegar a Tóquio em 2020.

Para conhecer o trabalho de João Maia, acesse www.fotografiacega.com.br ou @joaomaiafotografo no Instagram e veja como o mundo e a fotografia podem ser inclusivos.

Publicado por: João Maia Categoria: Inspire-se

Comentários

Deixe seu comentário
Julio Cesar Silva Penna

Parabéns a João Maia, pelas belas fotos e pelo espetacular exemplo!