teste minha imagem
Google+

Blog 09.02.2018

A verdade da foto: conheça o trabalho de Renato Stockler

O começo

Em 1999, a graduação em jornalismo me expôs a algo que eu já conhecia em mim, mas ainda não tinha forma. A escrita, até então, era o suporte para as narrativas que eu propunha ao mundo. Queria contar sobre o que via, o que ouvia, sobre as parcialidades do mundo e os questionamentos que tenho até hoje diante de injustiças históricas no Brasil e na América Latina.

Durante o curso, tive contato com a disciplina de fotojornalismo e percebi que muito do que eu escrevia eram narrativas visuais na forma de texto, com grande  influência de escritores como Guimarães Rosa e Manoel de Barros. Estimulado por muitas pessoas – professores, laboratoristas e outros fotógrafos que se tornaram grandes amigos –, mergulhei no universo da fotografia.


Canon EOS 5D Mark II - EF 50mm f/1.2L USM - 1/4000 - ISO: 100
Foto: Renato Stockler

Ao finalizar o curso, fui convidado por dois amigos estudantes de Ciências Sociais para contribuir com a fotografia de um documentário sobre o sistema prisional de São Paulo, à luz da desativação da extinta Casa de Detenção, palco do maior massacre social a que o Brasil assistiu no fim do século XX. Foram cinco longos meses lendo e pesquisando tudo o que tratava da política de encarceramento em massa que começava a ser implementada no Brasil. O documentário não foi finalizado, mas a quantidade de fotografias que produzi era imensa: 50 rolos de cromos 35 mm, 20 rolos de negativos coloridos e mais uma infinidade de rolos em preto e branco. Eu estava diante do lugar sem volta para mim: onde estão e onde se cristalizam as desigualdades sociais, no País e no mundo.

A partir de então, descobri muitas formas de abordar determinados temas, mas foi a produção documental que mais me atraiu. Por considerar que um assunto não poderia ser aprofundado por meio de uma só fotografia, abracei o conjunto fotográfico que a obra documental prevê: ela trata de ampliar visualmente a complexidade que fenômenos e eventos contemporâneos carregam em si mesmos, evitando a redução muitas vezes proposta pelo conceito de imagem única.


Canon EOS 5D Mark III - EF 70-200mm f/2.8L IS USM - 1/800 - ISO: 160
Foto: Renato Stockler

É preciso planejar para fotografar a realidade

Uma pesquisa prévia sobre aquilo que pretendo abordar é essencial para evitar erros de interpretação ou cometer falhas de abordagem. Conhecer a história socioeconômica local e que representa questões globais, tomando contato com acontecimentos e personagens relacionados ao tema, ajuda tanto no momento de produção quanto na edição do material.

Assim, meu trabalho parte do princípio de que todas as ações, positivas ou negativas, geram impacto direto em um sistema maior. Perceber as conexões entre o micro e o macro me permite escolher trabalhar sobre determinado tema, buscando construir narrativas que façam sentido não só para mim ou para o espectador da imagem, mas também para aqueles que ali se viram retratados.


Canon EOS 5D Mark III - EF 70-200mm f/2.8L IS USM - 1/400 - ISO: 125
Foto: Renato Stockler

O contato e a conversa anteriores à fotografia sempre foram o caminho que prefiro estabelecer quando estou em uma pesquisa mais aprofundada.

Para fotografar pessoas reais recomenda-se empatia

Quando se cria essa conexão, quando há empatia construída entre as pessoas em determinado contexto, começo a fotografar. É possível que se estabeleça certo grau de intimidade entre fotógrafo(a) e fotografado(a). Nessas condições, enxergo a fotografia como uma ferramenta de comunicação que vai além do código visual: ela se torna a ponte entre realidades muitas vezes distintas.

Estar com uma câmera pode tanto criar curiosidade quanto repulsa em muitos lugares. Por isso, parto do princípio de que ela é uma ferramenta importante para o fotógrafo e deve ser usada com responsabilidade e respeito ao outro.

Quando sinto que há algum desconforto no meu entorno com a presença da câmera, aquele talvez não seja um momento bom para fotografar. São gestos que contribuem para a minha percepção e ajudam a melhorar a fotografia e minha relação com o mundo.


Canon EOS 5D Mark III - EF 70-200mm f/2.8L IS USM - 1/400 - ISO: 125
Foto: Renato Stockler

Por partir da lógica de troca, muitas vezes deixo a fotografia simplesmente acontecer, com o mínimo de interferência que minha presença ali possa gerar. Mas também trato de referências e ideias que carrego comigo e, com o diálogo, posso conduzir retratos, por exemplo. Não é minha prática em trabalhos documentais, mas quando há cumplicidade entre fotógrafo(a) e fotografado(a), é uma maneira de gerar resultados potentes.

A iluminação e os equipamentos

Tento me adequar aos locais, observando muito. Em determinado momento da minha produção fotográfica, o domínio técnico e a capacidade de compreensão da luz se automatizaram, o que agiliza o processo e me permite mais criatividade em determinadas situações. Trabalhar com longas exposições sem o auxílio de tripés ou suportes para a câmera se tornou prazeroso. Tenho uma liberdade criativa nos processos autorais que muitas vezes não tenho em trabalhos comerciais.

Assim, o uso da luz natural e a observação de como ela ocupa determinado espaço é essencial para produzir determinadas imagens. A luz é capaz de transformar ambientes comuns em lugares improváveis e encantadores. A possibilidade estética que a luz proporciona à fotografia, somada às ações humanas e à pesquisa aprofundada, ampliou a consistência de determinados projetos em que me envolvi.


Canon EOS 5D Mark IV - EF 50mm f/1.2L USM - 1/40 - ISO: 320
Foto: Renato Stockler

Além da luz, aspectos formais de composição são quase uma obsessão minha. Normalmente as fotos aéreas que produzo possuem esse rigor técnico. Não encaro como uma regra, mas é um exercício imenso tentar abdicar de certos formalismos! E objetivas fixas e claras são essenciais nesse aspecto: eu me habituei a fotografar com aberturas f/1.4 e f/ 2.0.

Como trabalho com câmeras que possuem ampla latitude de exposição, indo muito bem em condições de muita ou de pouquíssima luminosidade, as lentes fixas me garantem qualidade ótica adequada e evitam aberrações cromáticas nos extremos das aberturas do diafragma.

Hoje trabalho com uma Canon 5D Mark IV como corpo principal para a fotografia e a utilizo como segundo corpo em documentários para cinema em que sou diretor de fotografia, normalmente utilizando uma Canon C300 Mark II como câmera principal.


Canon EOS 5D Mark IV - EF 24mm f/1.4L USM - 1/125 - ISO: 320
Foto: Renato Stockler


Canon EOS 5D Mark IV - EF 24mm f/1.4L USM - 1/125 - ISO: 640
Foto: Renato Stockler


Canon EOS 5D Mark IV - EF 24mm f/1.4L USM - 1/100 - ISO: 1250
Foto: Renato Stockler

Publicado por: Renato Stockler Categoria: Inspire-se

Comentários

Deixe seu comentário