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Blog 25.03.2018

A realidade dos refugiados com Karine Garcêz

Fotografia é congelar um lapso de tempo, encher-nos de saudade pela memória registrada, eternizar um rosto que não queremos esquecer jamais. São tantas as possibilidades na ação de fotografar que não há como relacionar todas. Da mesma forma, há também muitas possibilidades na minha relação com a fotografia, porque o que me motiva é uma mistura de muitos sentimentos.

Essa relação iniciou-se em outubro de 2012 quando viajei à Arábia Saudita. Ao realizar um dos pilares da minha fé islâmica, o Hajj, peregrinei em torno da Caaba e repeti os passos dos profetas Adão, Abraão e Mahamad.


Queria congelar aquele momento, porém, como estudante de Relações Internacionais ainda sem conhecimento técnico da fotografia, pensei além, pensei no registro das inúmeras culturas ali reunidas, expressas em 3 milhões de pessoas, todas fazendo a mesma ação, mas cada uma com suas cargas históricas, sociais, econômicas e culturais.

A fotografia foi se desenhando em minha mente, trazendo o desafio de fundi-la com meu objeto de estudo nas Relações Internacionais. Sem o conhecimento da técnica de fotografar e com um equipamento mais amador composto por uma Canon EOS Rebel T3i com lente EF-S 18-55mm f/3.5-5.6 IS II, mas com o olhar movido pela mente e pelo coração, me permiti o desafio. Isso me levou à Faixa de Gaza em novembro de 2012, onde consegui algumas aulas com um fotojornalista professor da Universidade de Gaza considerado um dos melhores da região, com prêmios internacionais.

AS PESSOAS QUE SE REFUGIAM DO HORROR DA GUERRA

Em 2014 e 2015, viajei para a Síria, o Líbano e a Turquia, dessa vez com um pouco mais de conhecimento na arte de fotografar e certo domínio das questões políticas e culturais da região, migrando para um equipamento semiprofissional composto de uma Canon EOS 60D e lente EF 50mm f/1.8 STM.

Eu fazia parte de uma campanha de ação humanitária promovida pela ONG holandesa Al-Wafaa Campaign, algo importante para uma flexibilidade do trabalho, o que não aconteceria caso fosse fotojornalista oficial. Isso me trouxe a reflexão sobre o que se mostra do Oriente Médio, o que se apresenta sobre os refugiados. Sempre a mesma linguagem de espetacularização da dor, das tragédias.


Eu não queria o mesmo. Quis retratar pela fotografia olhares que pudessem me contar sua história, sua dignidade; e as crianças têm sempre mais a dizer e expressar. São as principais vítimas da espetacularização da violência e da miséria humana, nos dão de graça sorrisos, vida, futuro, e nos contam por meio das suas expressões que a tragédia pessoal não lhes tirou a inocência.



FOTOGRAFIA PROPOSITALMENTE HUMANA

Fotografar de maneira independente, com propósito documental e humanitário, me levou a experiências e histórias fantásticas, como a de uma senhora que trouxe sua filha sorridente querendo ser fotografada e, com ela, várias roupas e amigas para fazerem parte da foto. Com dificuldade de compreensão linguística, nos comunicávamos por sinais e poses e íamos a lugares aos quais ela me levava pela mão, situando-me onde queria ser fotografada e sempre procurando um espaço verde, limpo, sem expressão de destruição. Outros perguntavam se suas fotos seriam publicadas na Al Jazeera ou na televisão do Brasil, e um menino perguntou se o Cristiano Ronaldo iria ver sua foto.



A TÉCNICA

Tecnicamente, fotografar em campos de refugiados e áreas de conflito como na Síria exige o mínimo de equipamento, por fatores relacionados à segurança, para não chamar a atenção. Por exemplo, o uso de flash, dependendo da hora do dia e o local, não é recomendado devido à emissão de luz. Você pode ser rastreado pelo que não quer atrair, por isso lente clara é fundamental.

Muitas vezes eu passava por situações de baixa luminosidade. Como teria de aumentar muito o ISO para conseguir ter a foto, notei que teria resultados com muita granulação e nitidez comprometida.

Mas, pesquisando o trabalho de muitos fotógrafos, percebi que poderia tornar esse problema uma linguagem estética. Soube também como melhorar a qualidade das fotos nessas situações e atenuar a falta de luz.

O grão acabou virando linguagem.

Algumas referências internacionais para estes trabalhos foram Bieke Depoorter e Darren Lehane. Os nacionais, Tiago Santana, Sebastião Salgado e meu professor da época no Ceará, Fernando Jorge.

Superados esses limites, descobri que meu forte é o retrato, estilo que passei a explorar mais comumente. Tento, através do olhar e do sorriso, captar sentimentos e resgatar a infância roubada na busca por refúgio, sobrevivência, conectando com o Brasil toda essa experiência.

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O que faço em fotografia é uma mistura do meu conhecimento em questões humanitárias e em Direito Internacional dos Direitos Humanos com meu desejo de desenvolver a arte da fotografia refletindo meus anseios mais humanos. Assim, sigo na fotografia apesar das dificuldades trilhadas, mas sempre procurando evolução profissional e pessoal.



Publicado por: Karine Garcêz Categoria: Inspire-se

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